Há anos, o Sr. Odair Costa vem promovendo nas escolas e na cidade a Campanha: "Pipas sim, com cortante não". É dele um santinho que procura distribuir aos alunos nas escolas com a imagem de Cristo e as crianças. Uma delas que segura a pipa sem cortante, dirige a Jesus essa pequena oraçãozinha: “Pipa com cerol carrasco de inocentes, tem ferido gravemente e matado muita gente. Que esta brincadeira com o cortante deixe de existir na vida das crianças brasileiras”
Quase sempre constrangidos, assistimos às competições de pipas que acontecem durante o período das férias, entre crianças, adolescentes e jovens do sexo masculino. As meninas ainda não se arriscam a fazer tais competições.
Com o futebol e o Carnaval, capoeira e samba, música sertaneja e caipira, as pipas completam o quadro da beleza do folclore brasileiro. Os instantes em que as pipas sobem para o alto, são lindos. Porém, os concorrentes, viciados neste jogo competitivo, em eliminar as pipas dos adversários, quase obcecados, colocam cerol no fio que as levam ao céu e na extremidade colocam muitas vezes, pedacinhos de vidro para prender a outra pipa, amarrá-la e puxá-la para baixo com a satisfação de tê-la derrotada.
As pipas bailam, dançam, movidas pelo vento e se deslumbram no céu com aquela rara beleza. A competição é sempre entre duas pipas agitadas por dois concorrentes que entram em campo usando ruas, praças, terraços, telhados, terrenos baldios, para lançar suas pipas, muitas vezes com cortante. A destreza dos que manobram as pipas, fará que o jogo termine logo com a imobilização da pipa presa.
Todo esse patriotismo em ser melhores no futebol, no samba, na capoeira e nos jogos das pipas, vem ruindo ao olharmos espantados a realidade brasileira.
As favelas crescem e tornam-se mais violentas, incubadoras da criminalidade. Aumenta a violência urbana. Como se isso não bastasse, também o jogo das pipas mata pedestres, bicicletistas, motoqueiros, fere e deixa cortes nos motoristas que dirigem com o braço fora da janela do carro. O perigo está no cerol, que é uma graxa, massa de cera, pez e sebo, empregado para tornar mais resistentes as linhas, usadas também para coser sola ou para conservar o coro e dar-lhe mais brilho.
Quando a pipa se aproxima do pedestre ou dos motoqueiros e motociclistas e eles não percebem a presença da linha, esta pode ferir e cortar a garganta. Por isso se aconselha sobretudo a quem viaja de moto de usar uma antena que fique mais alta da cabeça.
Este jogo que é o cartão postal de muitas ruas e praças cheira mal e não é inócuo.
Contudo, nesse cenário triste, o desafio é fazer uma competição bonita. Os rapazes se encantam com as pipas bailando e dançando no ar.
Sei que é celebrar a vida quando duas crianças jogam com as pipas ou dois times fazem uma partida de futebol e no fim se abraçam. Por isso, não podemos perder a capacidade de celebrar alguns mínimos sinais de vida e de beleza, mesmo diante de uma realidade tão crua. Quase todos os dias vejo soltar pipas no ar e procuro descobrir o aceno divino que habita nas pessoas e na destreza com a qual eles procuram vencer as pequenas batalhas da vida. Porém, para vencer as frustrações, os desacertos, as mágoas, as dores do passado e do presente é necessário abastecer-se com a verdadeira seiva de vida, com o carinho, a confiança, a ternura e com o bem-estar, a saúde e a educação.