A estudante Rhyllary Barbosa, de 16 anos, que usou técnicas de jiu-jitsu contra Luiz Henrique de Castro, um dos assassinos do massacre na escola Raul Brasil, ocorrido em março do ano passado, disse que ainda sofre com pesadelos do dia do ataque.
Durante o DS Entrevista, a jovem falou sobre o período pós-ataque, disse que fez uma pausa nos atendimentos psicológicos, que ainda sofre com pesadelos e revelou que muitos alunos que estavam na escola durante o caso dizem terem "perdido a vontade de viver".
"Eles relatam que, além de terem muitos pesadelos, perderam o ânimo de viver, a alegria e o sentido da vida. Eles querem sair deste plano, desaparecer. Alguns estão tentando seguir, só que tem pessoas que entraram na depressão e tem quem mudou de escola e está insatisfeito. É uma situação complicada", contou a jovem.
Rhyllary mudou de escola após o ataque. Hoje, ela estuda em uma unidade particular de Suzano e tem dificuldades para se adaptar a nova realidade. A jovem tem sofrido para fazer amizades.
"Eu era acostumada com a convivência da Raul. Eu tinha uma conexão muito boa com alunos e professores. Na outra escola, estou encontrando um pouco de dificuldade para me adaptar, me relacionar e me aproximar das pessoas. Não que seja uma escola ruim, mas a energia mudou bastante", afirmou a estudante.
Acompanhamento psicológico
Nos dias que sucederam o ataque, uma força-tarefa foi montada para amenizar os efeitos nos estudantes e pais de alunos que estavam na escola. Uma parceria entre Prefeitura e Estado trouxe 34 psicólogos em julho de 2019, que se juntaram a outros 19 mobilizados pelo município.
Rhyllary fez uma pausa nos atendimentos. Ela disse que pretende retornar, mas deixou claro: muitos alunos atendidos precisam de um "aprofundamento".
"Eu passava pelo posto de saúde. Não desmerecendo, mas me ajudou em partes, em questão da convivência com família e amigos. Mas, para meu psicológico e pesadelos, não ajudou tanto. Não sei, mas pode ser porque me afastei por conta da rotina. Penso em voltar, porém queria que fosse mais aprofundado. Muitas crianças precisam desse atendimento mais profundo", revelou.
"Em alguns casos, os alunos olhavam e falavam que não iam passar porque 'não adiantava'. Temos que entender que psicólogo não faz milagre. Porém, os estudantes que vão continuar lá dentro (da Raul Brasil), precisam de um atendimento mais forte", emendou.
"Não sou heroína"
Câmeras instaladas no hall de entrada da Raul Brasil mostraram imagens de Rhyllary tantando escapar das rasteiras que o assassino tentou dar, a fim de derrubá-la após segurá-la. A jovem, que treina jiu-jitsu há três anos, se manteve em pé e correu em direção à saída. Nas imagens, ela abre a porta, possibilitando que dezenas de alunos saiam correndo instantes depois. Esse ato gerou uma série de homenagens à estudante ao longo de 2019.
No entanto, ela não se considera uma heroína. "Olho para mim e falo que fiz o que tinha que ser feito. As pessoas viram o que eu fiz, porém ainda não consigo ter uma noção tão ampla disso. Não consigo me taxar como heroína. Simplesmente usei técnicas para não cair".
Outros casos
Questionada sobre a segurança nas escolas, a jovem disse acreditar que as pessoas estão mais atentas. Mas destacou outros casos de violência nas escolas após o caso Raul Brasil.
"O que mais vi, foram relatos de que 'fulano entrou na escola e tentou matar professor' e de 'aluno levou faca para a escola'. Depois do ataque, houve vários outros relatos de violência e de alunos revoltados e inconformados. Isso assusta. As pessoas estão mais atentas. Elas sabem que se aconteceu em uma escola, pode acontecer em outra. Precaução nunca é demais".
Em dezembro de 2019, um homem de 28 anos tentou entrar com um arsenal de facas e canivetes no Fórum de Mogi das Cruzes. Para a polícia, o indivíduo afirmou que tinha os objetos para "defesa pessoal".
Em fevereiro deste ano, uma estudante de apenas nove anos levou uma faca dentro da mochila para uma escola de Suzano. Ela criou um grupo de Whatsapp com outros três alunos. Ali, começaram a planejar a morte de um colega da mesma idade. A mãe do aluno alvo do ataque divulgou prints do aplicativo à reportagem do DS, mostrando as quatro crianças realizando uma "votação" para escolher a faca que seria usada no crime. O plano foi descoberto pela mãe de um dos alunos que estavam no grupo.
Um ano depois
A estudante busca um investidor para levar o jiu-jitsu como carreira. Ela pretende ser uma lutadora reconhecida, porque acredita que será através desse reconhecimento que poderá chegar a outras pessoas.
"Eu quero levar o jiu-jitsu para o mundo. Quero que as pessoas saibam que é importante saber se defender", disse. A jovem também montou, junto com sua assessora, um projeto de paz nas escolas. Sobre mais ações sociais, ela disse que pensa no assunto.
"A fase ruim vai passar, não é eterno. Tenho orgulho de vocês (alunos da Raul Brasil). Obrigado por tudo o que vocês fizeram por mim e pela receptividade. A gente vai vencer essa guerra", declarou.
Interessados podem entrar em contato com Rhyllary pelo Instagram: @Rhyllary_Barbosa. Tem também o perfil @valeriaignacio9190, que é da assessora da estudante. O telefone para contato é 11 96308-6294. A jovem também participa do Projeto Bonsai, que pode ser acessado pelo Instagram: @ProjetoBonsaijj.



"Eu era acostumada com a convivência da Raul. Eu tinha uma conexão muito boa com alunos e professores. Na outra escola, estou encontrando um pouco de dificuldade para me adaptar”, contou Rhyllary - (Foto: Jackeline Lima/ Divulgação)




