Algumas coisas acontecem em nosso cotidiano que ativam algum arquivo em nossa memória e nos fazem relembrar fatos ocorridos há muito tempo e que permaneceram de certa forma esquecidos...
As reportagens sobre a morte do apresentador de televisão que acompanhou a vida da maioria de nós ativou a memória de muitas pessoas, afinal ele nos acompanhou desde a época da TV em preto e branco.
Ouvindo os repórteres descrevendo a vida e o trabalho dele, vi passarem pela minha lembrança algumas coisas que aconteciam em nossas casas em outros tempos.
A vida em família era bastante diferente da que hoje vivenciamos, trabalhávamos durante toda semana ou estudávamos, dependendo de nossa idade, os filhos tinham a obrigação de auxiliar os pais nas despesas do lar, então se podíamos estudar meio período ou no período noturno já estávamos capacitados para procurar um emprego no período livre.
Não havia mal nenhum em colaborar em casa, fosse auxiliando nos trabalhos domésticos onde as obrigações eram divididas entre os irmãos onde cada um tinha uma função e responsabilidade ou colaborando financeiramente com parte do seu salário para manutenção das despesas que sempre eram grandes. Nesse tempo era comum casais terem mais de quatro filhos, as dificuldades já existiam, mas todos eram unidos e partilhavam sem reclamar do pouco que tinham. Ouvindo e assistindo as manifestações das pessoas e dos repórteres, fui lembrando de passagens que aconteciam principalmente aos domingos nas casas da maioria das pessoas neste país... A televisão em preto e branco era ligada logo cedo, as salas possuíam em sua maioria um sofá de napa ou corvin de três lugares e mais duas poltronas individuais, normalmente ocupadas por nossos pais, no sofá maior se acomodavam todos os filhos, os maiores sentados no sofá e os menores no colo para assistirem alguma parte do programa que fosse mais interessante para todos.
O almoço de domingo era especial, o macarrão espaguete vinha em embalagem de papel azul e pesava um quilo, era grosso, mas tinha sabor especial por conta do molho de tomate feito na hora, o acompanhamento invariavelmente era um frango refogado ou daqueles que se compravam assados (quando o dinheiro dava para isso) e um litro de refrigerante dava para todos, não havia repetição, dessa forma era saboreado vagarosamente, por isso talvez se tornasse tão especial.
A reunião em torna da mesa de todos era obrigatória, assim como a oração que antecedia a refeição. Isso permitia a união de todos, a convivência familiar e o compartilhamento das ideias, dos projetos e das dificuldades escolares ou no trabalho.
Um ajudava o outro, éramos todos próximos, a rotina não atrapalhava nossa vida e não tínhamos problemas insolúveis, alguém sempre tinha a alternativa para ajudar a resolver todas as questões, principalmente nossos pais, sempre disponíveis, apesar de mais severos.
O tempo passou, o progresso foi se apresentando, chegou a TV colorida, o acesso a modernidades, o telefone celular, mas as reuniões foram se tornando escassas, as famílias foram deixando de se reunir, as conversas foram sendo deixadas de lado ou acontecendo virtualmente, perdemos o aconchego do colo e do abraço dos pais e dos irmãos.
As reuniões de família foram se perdendo com o passar do tempo e não temos mais o programa que ocupava o domingo todo e acabava nos unindo...
Dá saudade desse tempo que não volta mais...