Quase sempre constrangidos, assistíamos, antes que iniciasse o frenético uso dos celulares ao panorama decantado das competições de pipas durante o período das férias, entre crianças, adolescentes e jovens do sexo masculino. As meninas ainda hoje, não se arriscam, a a fazer tais competições.
Com o futebol e o Carnaval, capoeira e samba, música sertaneja e caipira, as pipas, mais no passado e menos hoje completam o quadro da beleza do folclore brasileiro. Os instantes em que as pipas sobem para o alto, são lindos. Porém, os concorrentes, viciados neste jogo competitivo, em eliminar as pipas dos adversários, quase obcecados, colocam cerol no fio que as levam ao céu e na extremidade colocam muitas vezes, pedacinhos de vidro para prender a outra pipa, amarrá-la e puxá-la para baixo com a satisfação de tê-la derrotada.
Que espetáculo ver as pipas bailar, dançar, movidas pelo vento e se deslumbrarem no céu com uma rara beleza.
A competição é sempre entre duas pipas agitadas por dois concorrentes que entram em campo usando ruas, praças, terraços, telhados, terrenos baldios, para lançar suas armas. A destreza dos que manobram as pipas, fará que o jogo não termine logo com a imobilização da pipa presa.
Todo esse patriotismo em ser melhores no futebol, no samba, na capoeira e nos jogos das pipas, hoje está sendo substituído pelas crianças na capacidade técnica do uso dos celulares. Mesmo nas favelas que crescem entre violência e medo torna-se mais prazeroso manusear os celulares. Aumenta a violência urbana.
Como se isso não bastasse, seja o jogo das pipas que mata pedestres, bicicletistas, motoqueiros, ferindo e deixando cortes nos motoristas que dirigem com o braço fora da janela do carro, o perigo está também, no uso indiscreto dos celulares. Sabemos que quando a pipa se aproxima do pedestre ou dos motoqueiros e eles não percebem a presença da linha, esta pode ferir e lhes cortar a garganta. Também o celular enche a cabeças de quem o usa, de olores que parecem atraentes, mas trazem sentimentos de violência, de ódio e de morte. Por isso, se aconselha aos pais de não deixar os filhos se viciar no uso inescrupuloso do celular.
O jogo das pipas, que é o cartão postal de muitas ruas e praças, cheira mal e não é inócuo, a mesma coisa acontecem com o celular, ele não é inócuo. Nesse cenário triste, o desafio é grande. Os rapazes se encantam com as pipas e com os celulares. Procuram apaixonar-se por expressões de formosura que disfarçam a triste realidade na qual vivem.
Seus rostos revelam obstinação. Pecado que acreditam apenas nas conquistas que não lhes darão um futuro diferente. De fato, existem ainda crianças, famílias que vivem nos cortiços que se equilibram com suas casas sobre monturos de lixo e córregos fétidos.
Crianças que após ter ouvido o bê-á-bá da professora, correm para abrir o celular, cativados pelo inefável fascínio das telinhas. Talvez essa seja a última esperança de lazer e da civilização: deixar que as ilusões encharquem e inundem a alma.
No entanto, não podemos perder a esperança de celebrar alguns mínimos sinais de vida e de beleza, mesmo diante de uma realidade tão crua. Porém, para vencer as frustrações, os desacertos, é necessário abastecer-se com a verdadeira seiva de vida, com o carinho, a confiança, a ternura e com o bem-estar, a saúde e a educação.