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Colunista

Doces campos cerrados dos Mirambava

28 março 2015 - 08h00 Por suporte

O povo que vivia, no século XVI, onde hoje fica o Centro da cidade de Suzano, era conhecido por "Mirambava", uma expressão que o caboclo atrofiou do tupi-guarani "Manh'wara". Minhas pesquisas revelaram que a expressão significava "aqueles que comiam "wará-itás", ou"guará-itás", caranguejos de rio. Esse espaço era um cerrado, como a região do Vale do Anhangabau. O rio Guaióinundava várias vezes por ano o lugar e quando retornava ao seu leito deixava sobre o campo, além de peixes, também uns caranguejos de rio, de casca dura (ita, ou seja, pedra). Aliás, a expressão Guaió, significa, também em tupi-guarani, "rio que volta sobre si mesmo".E gente antiga de Suzano, ainda lembra que há uns trinta anos os rios de Suzano, Guaió e Una (antigo Figueirinha) inundavam muito. E nós, que aqui estamos, e ficamos, nesse campo, nesse cerrado, hoje urbanizado, somos o atual Povo Mirambava. Mudamos o cerrado. Plantamos uma cidade. Mudamos nossa própria Cidade. Nessa data não podemos nos esquecer das origens dos que nos deram base para sermos o que nos transformamos ao longo do tempo. A todos nós, dedico uns versos da minha poesia, que singelamente chamei de "Minha Cidade": "uma cidade pode ter sua paisagem/rica de morros e de cores/ de ruas e de rios// ou pode mesmo ser pobrinha/de tanta gente que não lhe quer/só na busca do que lhe renda// pode uma cidade subir/pelas plácidas colinas urbanas/adormecida em blocos descorados/ para acordar os dias cinzas/e recolher-se em meio às noites/quem sabe esconder-se na neblina// tem esta um rio descuidado/serpeante pelo vale/em femininas generosas curvas/ uma encruzilhada de entradas/que se abrem caminhos pelo campo/que foi um dia dos manh'waras// uma cidade pode ser uma casa/como esta minha/ter quartos/corredores/quintal/ até jardim// de algum modo/com todo o coração/estes braços/ e umas tantas ideias que achei/ajudei a erguê-la do chão// não estava sozinho/nunca se está/dentro de uma vila/que será sempre minha e sua/ será nossa/mesmo que não queira/ ou não saiba// queria muito/que um pouquinho todos dessem/as suas mãos solidárias/como um carinho/que lhe estamos a dever// uma cidade não é aquela sua imagem/frio desenho de elevadas arquiteturas/flutuantes em meio à fumaça fabricada/como se fria bruma pelos montes// uma cidade é a sua gente/a gente que nos faz o tempo/a gente que lhe ilumina os versos/que lhe faz em poesia"