Terça-feira foi um dia comum, vivido de maneira incomum pelas crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e Médio que sobreviveram ao terremoto e frequentam as aulas numa escola provisória, em prédio pré-fabricado. Nas salas onde estavam esperando a visita do bispo Dom Domenico, viram entrar o papa Francisco, como um anjo descido do céu. Todas as vibrações encontraram eco na mente e no coração dos alunos e também nas árvores, flores, plantas e nos pássaros que são os únicos viventes, além de algumas famílias, numa cidadezinha que ficou toda destruída.
Os alunos receberam a visita do Santo Padre, sem que nenhuma delas soubesse da chegada dele. A informação dada era a de que o sr. bispo faria uma visita aos alunos e aos seus pais, que o esperariam numa tenda maior, visto que os edifícios públicos e religiosos, como também, outros cinco mil edifícios privados estão inutilizáveis. Tudo foi programado para que a visita do papa Francisco não tivesse gastos com aparatos de ordem e segurança.
“Quando for nas áreas atingidas pelo terremoto, irei em visita de caráter privado, sozinho, como padre, bispo, papa, mas sozinho. Quero que seja assim, sozinho, cara a cara com as pessoas”, havia afirmado o papa durante uma viagem de avião, após a visita oficial de três dias a Geórgia e Azerbaijaõ.
Na saída da escola, apertou a mão de um homem, visivelmente emocionado, que perdeu a mulher e dois filhos no terremoto.
O seu discurso foi o silêncio, síntese da sua dor e mensagem do seu amor, mesclando a dor à esperança de um futuro que existe e deve ser construído.
Se o terremoto e a morte sufocaram a vida e o amor, o Ressuscitado antecipou o dia feliz da glorificação e da vitória para as pessoas que foram surpreendidas pelos tremores violentos enquanto dormiam. Aos sobreviventes Papa Francisco pediu união e coragem, mesmo sabendo que a incerteza e a insegurança se intrometeram na vida deles. Foi assim que o Santo Padre comemorou a memória de São Francisco, que é celebrada no dia 4 de outubro. Na simplicidade e na proximidade dos abatidos no corpo e no espírito. Eu também vi bem de perto as áreas atingidas pelo terremoto. Naquela noite do 24 de agosto de boca em boca, de casa em casa corria veloz o grito de socorro! Cada lágrima, cada sofrimento, cada gota de sangue não terá sido em vão.
A todos, o Senhor coloca de novo em pé, como criaturas vitoriosas e vencedoras.
Em agosto, indo para Cracóvia para participar da Jornada Mundial da Juventude, passei com os jovens em Auschiwitz. Havia um silêncio de holocausto, de morte e de tristeza no ar. Assim também, caminhando entre os imóveis desabados e destruídos pelo terremoto, sem alma viva nas ruas, repletas de escombros, de colchões e armários inúteis, como restos que agonizam no chão, há um clima sombrio, pesado, de espanto, sem energia de vida. E os sobreviventes sofrem pesadelos, sem deixar de lado o sonho , a luta, a dor e a saudade.