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Colunista

O Facebook entorta os olhos

29 dezembro 2016 - 07h00 Por Gabriely Machado
O Facebook entorta os olhos

Você não tem Facebook? Ah, tem sim né? E coloca ali tudo que faz, não coloca? Todos nós estamos nessa. Não é errado. Vivemos nossa época. Todavia, tropeçamos quando deixamos as impressões de algo como o Facebook dar a norma para nossos critérios. Como? Eu explico. Um filósofo chamado Guy Debord escreveu em 1967 que a disputa entre ser e ter estava já defasada, pois o que importava mesmo, para nós todos, era o aparecer. Só agora podemos notar o quanto ele estava certo. Nossa época dá crédito de existência ao que aparece. Há uma longa teoria por detrás dessa frase de Debord, sobre a teoria da mercadoria etc. Não quero falar disso aqui. Lembro apenas de quanto agora, incontrolavelmente, estamos mesmo presos ao aparecer. Nada que comemos enche a nossa barriga se não postarmos no Facebook uma foto nossa comendo! Vamos para uma festa, e chegamos lá antes para postar fotos do que para curtirmos a festa. Toda a realidade nos é sensual se vista por meio de imagem. O virtual é a nossa vida. Há problema nisso? O problema surge quando essa forma de ver e viver torce e retorce nossos critérios, em especial de nosso trabalho e profissão. Em geral, nosso trabalho depende de um tirocínio especial e de um mundinho próprio. Não podemos exigir de nosso trabalho que ele se transforme em um espetáculo. A maior parte de nós não é atriz ou ator, não é jogador de futebol ou modelo. A maior parte de nós - balconistas, médicos, professores, escritores e policiais - faz o que tem fazer, o que não inclui, inerentemente, o "aparecer". Mas se tudo é para aparecer, começamos a confundir as coisas, e então desvalorizamos a nós mesmos se não aparecemos como começamos a achar que deveríamos aparecer. Então, nessa hora, o professor de filosofia quer ser palestrante, o policial quer ser o Batman e a balconista acha que deve rebolar na loja como quem desfila na TV. As pessoas começam a exigir que todos sejam tão louvados quanto o Messi ou a Giselle Bundchen. Vi algo maluco no Facebook esses dias: as pessoas reclamando que tínhamos esquecido de declarar heróis (e homenagear) os soldados que foram de avião buscar os corpos dos jogadores do Chapecoense! Ora, isso é a confusão total. Cada um de nós faz o trabalho que faz, não temos que ser homenageados sob holofotes por isso. Se mudamos isso, nosso trabalho perde a sua razão de ser, ele decai e deixa de ser o que é para se transmutar no apresentável. Não podemos deixar o critério de realidade de nossos afazeres ser o imagético do Facebook, e então tomá-lo como uma TV, e achar que há sentido na vida se o que fazemos aparece em uma tela! Cozinhamos e isso vale pelo cozinhar, não temos que esperar que o cozinhar seja só o que é apresentado no programa da Ana Maria Braga, por conta de darmos crédito de existência ao que o visto na tela, como o Facebook nos quer ensinar. Muita gente tem feito o que fazia muito pior do que antes, e isso à medida que começa a acreditar que aquilo que fazia era em função de ganhar celebridade. Não é! Outro dia vi um professor ficar deslumbrado não por dar uma aula boa, mas por ser convidado para aparecer num lugar onde se vive para aparecer! Ora, nem preciso dizer que ali já não se saiu bem. Começou ali sua queda. Nada contra o aparecer quando é o caso, mas, de certo modo, tudo contra ao aparecer quando o que se faz é melhor quando articulado a seu sentido interno, inerente a si mesmo.