Hoje o querido Martim (seu nome é assim mesmo, espanholado) completa mais um tanto entre nós. Pequeninho podia ser o Martinho. É uma daquelas crianças que nos marca com seu jeitinho de preguiça, nos seus olhos puxadinhos, e que nos leva a sensibilização. Nem sabe que é um conquistador. Hoje testemunho seu batismo. Tão bom.
Ao ver suas primeiras fotos, sabia, sentia que me passava poesia. E me dirigia ao Martim, depois que seu perfume me envolvia. Assim como disse nos versos do “Perfume Diáfano”: você quem é/ poesia/ senhora da minha vida/ que me chega toda vestida/ desse perfume diáfano/ iluminada e doce/ dominadora e pura/ madura como o fruto dourado/ nesse seu jeito absoluto/ que assim tão de repente me brilha/ da luz fugidia que pelos poros me escapa?
O avô do Martim e eu nos víamos irmãos. Ele é meu sobrinho-neto, enfim. E, do mesmo jeito da poesia, ele também me surpreende a cada novo dia. Como, com certeza o faz a seus pais. E a cada vez, se faz um poema novo. Como vi no “Inverso”: você surpreende-me sempre e ainda/ a cada novo momento/ inverso do meu verso tolo/ feito fugaz lua pós-poente/ afasta-me tanto o que temo e tento/ estender estas às suas mãos intangíveis/ quem sabe atingir os devaneios/ tocar o que não me é dado/ ou não me dou conta de nada/ de todo quanto me é lançado
Uma criança nova que nos chega, são como nossas novas conquistas. Como disse em “Descobertas”, que constatamos ao nos voltarmos para nós mesmos: você que chega sem avisar/ excita-me com novas palavras/ descobertas de mim mesmo/ revelando-me o adolescente/ que persiste em minha caminhada/ provocando-me os sonhos/ que já nem sonhar sonhava/ transforma-me os olhos insones/ nesses olhares bêbados/ daqueles que chegam depauperados/ de tanto amor perdido/ escondidos pelas madrugadas// ou deixa-me quieto sem sentido/ não me permitindo maior alarde
Lá ia eu, seguindo pelas páginas dos poemas desse meu livro, “Palavras à Poesia”, de bem mais de uma década. Então me vinha o Martim, lembrando-me de feitos e desfeitos perdidos pela minha juventude. E a poesia de novo me servia, como no poema “Guia”: você que nem sabe/ quem sabe me guia/ quem sabe protege/ por vezes tristes me intimida/ o solitário menino dos becos da noite/ que me vejo grisalho/ de tantas guerras antigas/ outras tantas infindas/ deixa-me por um instante/ prenhe assim de inúteis esperanças/ para perseguir essa tal jornada/ que distraída se faz a minha lida
Sinto como se o Martim - será que o bebê me via nos seus miúdos olhinhos? – como se provocasse, agora em mim, o que talvez provocasse no seu avô, talvez no seu pai, o que um dia senti em mim vendo meu filho voltar-se a mim. Como disse em “Fruto”: não sou pai/ por que fiz meu filho/ sou/ por que meu filho me fez
São intermináveis descobertas poéticas.