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Colunista

Transtornos de uma separação

28 fevereiro 2017 - 08h00 Por Gabriely Machado
Transtornos de uma separação

A menina traz em seu olhar uma tristeza contida, seu sorriso é sempre leve, parece que a alegria se ausentou daquele rostinho bonito de criança. Muitas conversas onde ela, sempre com jeitinho meigo disfarça e esconde o motivo dessa tristeza que de longe se percebe em seu olhar. Mais uma vez tentamos descobrir porque tanta tristeza num rostinho que deveria ter sorriso fácil, mas que se esconde e evita a convivência com as pessoas... Entabulamos uma conversa que parece superficial e vamos conquistando sua confiança... Lentamente ela vai permitindo que tenhamos acesso ao seu segredo tão bem guardado, mas que parece espinho que fere e sangra sem permitir que as lágrimas escorram liberando a dor. Divaga entre as brincadeiras dos colegas que a magoam, porque sem saber o motivo de sua ausência traquinagens normais da idade, colocam apelidos que a tornam ainda mais carrancuda e alheia. O fato de gostar de estudar parece também ser um defeito não uma qualidade. Em tempos que todos buscam a facilidade dos meios de comunicação e da internet, ela gosta da leitura e acaba sempre sendo surpreendida nalgum canto sossegada entretida com livros que não são comuns para sua idade. E assim de uma conversa amistosa, que transita entre vários assuntos ela conseguiu falar o que a deixa sempre triste e, então se percebe que muitas outras crianças possuem esse olhar distante e triste, uns mais intensos outros menos... Filha de pais separados sente-se culpada pelo divórcio deles, afinal, inúmeras foram às vezes em que ouviu as brigas do casal, tal qual muitas outras crianças ouvem e, na inocência não percebem que são meros artigos de negociação, por isso fazem parte de intensas discussões e, acreditam que tais separações somente ocorreram porque elas existem. Não entendem que a união de duas pessoas se inicia com muito amor, carinho e afeição e que a soma de tudo isso trouxe ao mundo essas vidinhas, a quem só devíamos dar amor e aconchego. Entretanto, muitos casais, com o passar do tempo deixam que o amor, o carinho e a afeição se desfaçam em meio aos desentendimentos pelos mais diversos motivos e, acabam culpando os filhos, resultado de um tempo de muito amor, pelas desavenças e infortúnios que agora passam, esquecendo-se que essas crianças ouvem as discussões e sem entender, acabam tendo a vida completamente mudada pela decisão de adultos que não se preocuparam com elas na hora da separação. Em suas memórias infantis e sem muito entendimento, acreditam que são responsáveis por atitudes que dois adultos tomaram, mas que as envolveram profundamente, porque após a separação continuam brigando e discutindo, usando os filhos como meios de negociação, fazendo-os mais responsáveis ainda pela discórdia entre dois seres para eles tão queridos, afinal ali não é um casal que briga para essas crianças são simplesmente pai e mãe, que eles amam igualmente e que não gostariam de se ver distanciados. Vivenciamos diariamente com crianças ora rebeldes, ora tristes, ora ausentes e acabamos não percebendo o quanto somos capazes de magoar com atitudes impensadas e até irresponsáveis.