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Colunista

Colecionador

04 março 2017 - 08h00 Por Gabriely Machado
Colecionador

Comecei a mexer numas prateleiras e fui encontrando coisas de há muito tempo. Coisas velhas, não: coisas antigas, quero dizer. Coisas, quem sabe a me desfazer. A minha geração colecionava muito, muita coisa. Quando pequeno, lembro muito bem, eu, como todos os meus colegas, tínhamos nossos álbuns de figurinhas. De todo tipo. De jogadores de futebol, de animais, de paisagens, de astros de cinema, de livros. Ah, juntávamos um depois do outro. As figurinhas nós trocávamos uns com os outros. E jogávamos. Todos nós “batíamos” as figurinhas soltas. Com a mão em concha batíamos sobre a figura, deitada ao inverso. E virávamos uma, duas ou mais fotos. Isso, não só mostrava nossa habilidade, como também nosso jeito de conseguir mais figuras que nos faltassem, na nossa própria coleção. Algumas figurinhas, por serem raras, difíceis de achar, tornavam-se muito mais valiosas. Havia álbuns que nem conseguíamos completar. Isso me irritava. Mas sabia que acontecia. Tinha coleções de selos. Por muitos anos mantive os meus selos, nas temáticas mais diversas. Mesmo depois de casado. E, como todo distraído, largava o material por aí, “pelos cantos”, como se dizia antigamente. Até que um dia, a minha mulher, que nunca gostou de ver tantas coisas soltas a se espalharem pela casa, me deu um aviso terminal: ou me desfazia das tantas coleções que tinha, que mantinha, ou ela ia se desfazer, sem me consultar. Fui separando as tais coleções. De fato, tinha muita coisa que nem a mim servia. Mas fui pensando em outros que poderiam se interessar. E fui vendo o quanto estava difícil me “desfazer” de um material com que há muito nem mais “fazia” qualquer coisa. Ninguém mais juntava tantos “acervos”. Lembro que a coleção de selos dei para a minha afilhada. Talvez ela nem mais mantenha aquele material todo. Visitei um amigo, meu compadre, que tinha uma coleção de Long-Plays. Consegui repassar a ele os meus tantos. Sobram-me os tantos CDs e DVDs. E as canetas-tinteiros que tive por muitos anos? E os relógios de bolso antigos? E livros, como nos livrarmos deles? Quem gosta os mantém. Já tive uma biblioteca com cerca de dez mil livros. Morava em casa e dispunha de um espaço só para isso. Ao mudar-me para apartamento, depois de uns assaltos, não tinha jeito. Tive de me “livrar” de ao menos dois terços dos livrinhos queridos. Hoje, novamente, terei de me desfazer de mais um bom tanto. O difícil é escolher quem “morre” primeiro? Qual autor vai sumir das minhas mãos mais rápido? Como sempre tive a mania de ler todo livro que me chega às mãos, mexendo nuns tantos deles agora, vou dando-me conta de que pouco lembro de alguns de seus textos. E como se desfazer de livros com autógrafos, com dedicatórias? Seria isso mesmo? Quem coleciona, junta coisas que vão fazendo parte de si mesmo. Juntando coisas, que um dia ao retirar de si mesmo, causará dor. Por isso sei, quem é colecionador coleciona dor...