O mar sempre me encantou. E sei que encanta quem dele se aproxima. Isso de ir e de voltar, sem deixar que a gente dele se desprenda, é tão envolvente. A praia sempre me prendia, desde muito pequeno. E isso mexe com todos. Mesmo quem já o descobre adulto, maduro. Vem e vai. Vai e vem.
O que muda o mundo? A nossa visão? Nossa emoção?
Muito pequeno, depois de fazer o que naquele tempo chamávamos de “Jardim da Infância”, hoje é “Pré-Escola”, tive uma outra especial relação com o mesmo mar. Minha família mudou-se de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, para Salvador, na Bahia.
Tinha lá meus seis anos. Fomos de navio.
E impressionava, a lembrança marcou-me, aquela sua imensidão, a se estender infinitamente...
Eu, tão miúdo a mirar o sem-fim. Seria a soma do conhecimento a nos preparar na vida?
Morei em fazenda, no interior do Brasil. Tinha rio. A água não deixa de mexer com a gente. Mas é diferente. Mesmo a chuva é uma outra água, diversa, diferente.
A chuva envolve as crianças. Como se deixar escapar? Muito depois, descobri que algumas chuvas também tinham raios, podiam até matar. Mas chuva não é o mar. Ainda que os dois possam se juntar nos seus cantos. Liquido tem a ver com alegria? Com tristeza? Com tudo junto?
Lembrei dos versos do muito querido Dorival Caymmi, claro. Seu poema musicado chama-se assim mesmo: “O Mar”. E ele nos traz esse repetir marinho, é o mar, é o mar... Lembram? Dizendo assim: “O mar quando quebra na praia/ É bonito, é bonito/ Nunca sabe se volta, nem sabe se fica”.
O Vinicius de Moraes, repete algo disso, muitos anos após, quando se mudou para a Bahia, no seu “Canto de Oxum”: “É o mar, é o mar F&eacut e;-fé xo-ro-dô!”
Pois, o mesmo Caymmi que nos trouxe esse mar a nos repetir, também fez um outro canto mágico com as rosas. No poema cantado, “Das Rosas”.
Ele diz assim: “Rosas...rosas ... rosas.../ Rosas formosas são rosas de mim/ Rosas a me confundir / Rosas a te confundir/ Com as rosas, as rosas, as rosas, de abril”... e por aí vai... As rosas são como o mar? Ambos se envolvem. Nos envolvem? Ambos são poesia? E nos dominam?
Mas, algo me diz, sinto que sei disso, que em ambos os casos, das rosas e do mar, Caymmi retoma os antigos versos da poeta americana Gertrude Stein, de 1913: “Rose is a rose is a rose is a rose”.
A Stein vivia na França, onde veio a falecer alguns dias depois que eu nasci.
É provável que não tenha nada a ver, suponho...
Ou, como um amigo meu sempre vê coincidências como algo planejado no Alto, tem tudo a ver...
Quem ama as rosas levanta a mão! Quem ama o mar levanta a mão!
Quem sente que está junto e misturado com as rosas do mar, e/ou com o mar de rosas?