Diante de tantos desafios para este ano que se inicia é preciso coragem e esperança, duas palavras marcantes para Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), arcebispo de São Paulo (1970-1998).
Assisti mais uma vez ao documentário "Coragem - as muitas vidas do cardeal dom Paulo Evaristo Arns" (2017) dirigido pelo jornalista Ricardo Carvalho (1948-2021), militante da comunicação social, dos direitos humanos e marcado pela convivência com o próprio Dom Paulo Evaristo Arns.
O documentário de 75 minutos é construído com imagens de arquivo e relatos de personalidades que conviveram com Dom Paulo, desde seus familiares, passando por padres e bispos, e chegando a lideranças populares, artistas e políticos que militaram no campo dos direitos humanos. O documentário registra, ao mesmo tempo, a história do Brasil e as mudanças da Igreja Católica ao longo da segunda metade do século XX e está organizado em seis partes: Dom Paulo, o cardeal da periferia; dos operários; do povo da rua; da resistência; dos direitos humanos; e da esperança.
O cardeal da periferia registra a solidariedade de Dom Paulo com o povo pobre e a ousadia da ação de quem vendeu o Palácio Episcopal por 5 milhões de dólares e comprou 1.200 terrenos para que as comunidades locais construíssem seus centros comunitários. Essa iniciativa foi chamada de "Operação Periferia". Não conheço prefeito que tenha comprado tantas áreas para a efetivação de centros comunitários capazes de garantir autonomia organizativa do povo.
O cardeal dos operários registra a organização da Pastoral Operária, a solidariedade de Dom Paulo com os trabalhadores, o assassinato do operário Santo Dias pela Polícia Militar do Estado de São Paulo e a presença intransigente de Dom Paulo denunciando os desmandos do governo e consolando a viúva do mártir e o povo que se organizava.
O cardeal do povo da rua mostra a luta de Dom Paulo ao lado do Padre Júlio Lancellotti para garantir dignidade à população moradora da rua. Dom Paulo havia ganho prêmio de 190 mil dólares no Japão e o entregou na íntegra ao Padre Júlio para investir no povo da rua.
O povo queria uma Catedral e lhe foi entregue a "Casa de Oração do Povo da Rua", com lugar para comer, dormir, tomar banho. Em seguida, foi construído o "Amparo Maternal" para apoiar gestantes moradoras da rua. Foi intenso o trabalho de organização e muitas as obras junto ao povo da rua.
O cardeal da resistência registra Dom Paulo denunciando as ditaduras da América Latina, acolhendo refugiados e lutando pelas eleições diretas para presidente no Brasil. O cardeal dos direitos humanos registra Dom Paulo formando a Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, liderando o Projeto "Brasil Nunca Mais" desenvolvido pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo nos anos oitenta e abrindo as portas da Catedral de São Paulo para Missas e Atos Ecumênicos em defesa dos perseguidos e assassinados pela ditadura militar.
Finalmente, o cardeal da esperança, referência de seu lema episcopal "de esperança em esperança" registra dom Paulo pedindo respeito aos direitos humanos, dignidade para os mais velhos, deficientes, crianças e mulheres.
O documentário é denso, bem humorado e emocionante. Mostra um homem que, nas palavras de Leonardo Boff, é "o arquétipo básico da existência humana, terno e vigoroso". Esse documentário é uma dose de coragem e esperança para começar o ano e refletir sobre a importância das lideranças conectadas com os desafios de seu tempo, comprometidas com o desenvolvimento da "pessoa humana", capazes de formar e multiplicar quadros e aglutinar multidões.


