As pessoas gostam muito de sonhar. Há sonhos noturnos que se dissolvem facilmente e sonhos que acontecem quando estamos acordados. Estes nos fazem arregaçar as mangas e nos comprometem a lutar por eles.
Enfim, assumimos tais sonhos como projeto de vida, com mil razões e bons motivos para realizá-los. Há uns tempos, sonhei que o mundo era mais parecido com o que Jesus Cristo o chamou a ser. Sonhei que todos os homens tinham de novo se deixado fascinar pelas palavras de Cristo, como discípulos que bebem da sabedoria do Divino Mestre, para descobrir os segredos fundamentais de suas vidas.
Sonhando, vi uma multidão de homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações, unidos em torno da mesma fé. No meu sonho, fiquei a espreitá-los demoradamente e apercebi-me que todos se amavam, todos se sentiam amigos, irmãos e seguros entre si.
Dei-me conta que eram muitos, mas não se deixavam engolir pela lógica da multidão. Eram muitos, porém, não eram uma massa incógnita de gente desconhecida. Sorri, então ao dar-me conta que a humanidade tinha se convertido numa universal família de irmãos. Todos percebiam que o mundo não era apenas um lugar material e terrestre onde cada um tem o seu espaço fechado, vigiado e protegido, mas uma família onde cada um era amado pelos outros, onde os olhares se cruzavam, os rostos se saudavam e todas as pessoas se enriqueciam mutuamente.
Ninguém se sentia a mais, nem desnecessário. Todos tinham vez e voz, todos eram participantes. Não havia classes ou elites mais importantes que outras. Todos eram fundamentais para tudo, porque tudo era de todos.
Cada um era reconhecido e amado na sua originalidade. Todos se sentiam acolhidos nas suas diferenças. Todos eram verdadeiramente exigentes consigo próprios e tolerantes com os outros. Não consegui ver, durante todo o tempo que durou o meu sonho, ninguém que me parecesse medíocre e vaidoso. Ninguém impunha as suas ideias e ninguém as deixava de partilhar e propor.
Quando as pessoas falavam de Deus, nunca precisavam impor doutrinas, regras e normas. Parecia-me que nem as tinham. Não precisavam de doutrinas aprendidas e decoradas, porque cada um saboreava a verdade e a bondade de Deus, experimentada na própria vida e amadurecida no diálogo fraterno. Quando, pois, chegou o Natal, as pessoas iam pondo aos pês do Menino Jesus, todo indício de violência, honra, reputação, vaidade, orgulho e ganância, se colocando ao lado dos humildes e descobrindo na humilhação do Filho de Deus nascido numa gruta a grandeza e a magnificência divinas.
Quando chegou o final do ano, ninguém ficou olhando para trás. Olhavam todos para frente, sabendo que ganhariam novo folego e novo entusiasmo ao longo do novo ano


