Com os olhos cansados, porém cheios de vitalidade, de quem viu muita coisa na vida, a moradora de Itaquaquecetuba, Leocádia dos Santos, completou 100 anos na última sexta-feira. Aos 12 anos, já era devota do padre Cícero, que é conhecido pelo milagre da transformação de hóstia em sangue. Em sua trajetória, Leocádia teve a oportunidade de ser apadrinhada pelo padre, padroeiro de Juazeiro do Norte, no Ceará. E afirma que ainda chegou a presenciar um milagre. Nascida em Viçosa do Ceará, em 1917, Leocádia, conhecida como Do Carmo, devido a seu nome incomum, perdeu a mãe aos 9 anos e o pai aos 12. Após isso, teve apenas a companhia do irmão mais velho. Aos 13 anos, em 1929, diferente das outras jovens, queria conhecer o então padre Cícero. Acompanhando as vizinhas e com a autorização do irmão viajou até Juazeiro para encontrá-lo. "Gastamos 19 dias, fora o período da noite. Fui com minhas vizinhas. Eu tinha muita vontade de ir e falei para minhas vizinhas que se elas quisessem me levar, eu ia. Elas falaram com meu irmão e ele deixou", contou. O caminho foi todo feito a pé. Ela contou que ao chegar, precisaram de três dias de descanso, com seus pés e pernas inchados. Quando finalmente foi conhecer padre Cícero, a então jovem Do Carmo, foi bem recebida pelo padroeiro. "Falaram para ele que tinha uma menina sem pai e nem mãe que queria vê-lo. Ele pediu que eu me ajoelhasse e pôs as mãos na minha cabeça". Ela contou ao DS que se arrepende de ter brigado com o padre. Quando finalmente chegou a hora de voltar, padre Cícero não autorizou que a então menina de 13 anos fosse para casa. A vizinha, chamada Maria Vertosa, iria permanecer em Juazeiro, para ficar com familiares. "Elas (as vizinhas) não iam mais voltar, mas alguns outros iam. Ele disse que eu não ia voltar mais. Ai eu briguei com ele, que Deus me perdoe". Padre Cícero sugeriu que Leocádia permanecesse morando com a vizinha. "Eu fiquei com a mulher. Foi uma segunda mãe que eu tive". Leocádia foi convencida a ficar e informou a decisão para o irmão. Padre Cícero afirmou que o rapaz a visitaria no final do ano. No início do ano que se seguiu, 1930, ela sonhou com a presença do irmão a abraçando. Dias depois recebeu a notícia de sua morte, que acontecera no mesmo dia de seu sonho. "Eu fiquei esperando por ele. No dia 20 de janeiro, ele morreu. De repente. Eu nunca esqueci disso", contou. Para ela, seu irmão a visitou assim como tinha dito que faria o padroeiro. "Eu fui para a casa do padre Cícero chorando. Eu disse 'O senhor não me deixou ir embora e ele morreu'. Ele me disse: 'Sabe porque não deixei você ir? Porque eu sabia que Deus ia levar seu irmão e você ia ficar lá sozinha. Não tinha pai, nem mãe. Você ia ficar com quem?'", contou. "Passei mais cinco anos na companhia dele". Leocádia guarda agradecimento ao padre querido do Ceará e volta pelo menos a cada dois anos a cidade onde foi acolhida. Sua última viagem aconteceu em novembro. Lá ela cresceu e casou-se. Teve cinco filhos. Veio para São Paulo morar com a filha mais velha, há 29 anos, após o falecimento do marido. Possui nove netos, 19 bisnetos e uma tataraneta.