Golpistas estão aproveitando a liberação da 2ª parcela do auxílio emergencial, do Governo Federal, para subtrair o dinheiro de beneficiários de Suzano. Vítimas estão descobrindo que o valor, seja de R$ 600 ou R$ 1,2 mil, foi sacado antecipadamente e pago um boleto de valor igual ao benefício.
Estimativas da Polícia Civil apontam para mais de 50 vítimas na cidade, exclusivamente de registros feitos na Delegacia Central. E o número pode aumentar conforme o passar dos dias. Mais de dez pessoas foram à delegacia, nesta segunda-feira, 15, para formalizar denúncia a pedido de funcionários de uma das agências da Caixa Econômica Federal.
O DS conversou com quatro vítimas da fraude. Todas tentaram obter, na agência da Caixa, localizada na Rua General Francisco Glicerio, próximo ao posto da Receita Federal, respostas do porquê o dinheiro havia desaparecido da conta digital. Na oportunidade, eles expuseram um documento interno do banco em que evidencia que o valor foi sacado e, depois, um boleto foi pago no débito automático.
Segundo eles, o dinheiro do auxílio emergencial viria num excelente momento, uma vez que devido à pandemia tiveram a rotina alterada e o valor seria para o pagamento de contas em atraso.
É o caso do autônomo João da Silva, 61 anos. De acordo com ele, a quarentena o forçou a parar suas atividades profissionais. E o valor do auxílio emergencial ajudaria-o a sanar dívidas pendentes. Disse, ainda, que o problema só ocorreu com a segunda parcela do benefício. “A primeira eu e minha esposa conseguimos pegar. A segunda, no entanto, ela conseguiu e eu não. Fui na lotérica e descobri que a conta estava zerada. Fui até o banco e descobri o que haviam feito. Esse dinheiro ajudaria-nos a pagar contas de água, luz, telefone, além de comprar alguma coisinha para casa”, diz.
Segundo Carlos Eduardo do Nascimento, uma das vítimas, a fraude foi realizada antes mesmo do benefício ser liberado. De acordo com ele, em razão da data de aniversário, a segunda parcela seria liberada para saque dia 9, porém, o valor já havia sido debitado da conta no dia 2. “Era um dinheiro que viria para o bem. Tentei verificar a possibilidade de trocar a senha, mas descobri que haviam recadastrado um outro e-mail que nunca vi na vida”, conta ele, que acrescentou: “não era só nós (quatro vítimas presentes na delegacia). Haviam outros com o mesmo problema. Os caixas eletrônicos estavam com uma fila grande até”.
O açougueiro Glauco Lagos também registrou boletim sobre a fraude. Ele acompanhava a sogra, que já é de idade. “(Ela) veio receber a segunda parcela, mas já tinha pagado um boleto ao qual ela desconhece. O problema só ocorreu com a segunda parcela. A primeira parcela foi tranquila”, complementa.
Bando organizado
O aumento de registros de fraudes, especialmente do auxílio emergencial, alertou o delegado Alexandre Dias, responsável pela Delegacia Central de Suzano.
Segundo ele, os indícios levam a crer que seja uma única quadrilha. Ele, porém, afirmou que uma grande investigação foi iniciada para apurar os fatos. “Aumento por causa do auxílio. Todos registros estão sendo direcionados para uma única investigação. Queremos dar uma resposta o quanto antes”, frisou.
Em nota, a Caixa disse que a área de segurança do banco realiza o monitoramento e mapeamento de ocorrências. E que atua em colaboração com os órgãos de Segurança Pública, com o objetivo de coibir eventuais ocorrências de fraude.
“Eventuais contestações de saques podem ser formalizadas pelo beneficiário diretamente em qualquer agência da Caixa. Para os casos em que houver eventual comprovação de saque fraudulento, o beneficiário será ressarcido. Visando evitar eventuais pagamentos indevidos, a Caixa enfatiza que o cartão e senha cidadão são pessoais e intransferíveis, não devendo ser fornecidos para outra pessoa. O titular do cartão deve guardá-lo em local seguro e a senha não deve ser anotada”.
Profissional da saúde também relata fraudes ao sacar auxílio emergencial
As fraudes com o auxílio emergencial também atingiram profissionais da saúde na região.
A funcionária do hospital municipal de Braz Cubas, em Mogi das Cruzes, a biomédica Claudia Elaine, também relatou ter sofrido um golpe com a parcela do seu auxílio emergencial.
Ela teria direito ao saque de R$ 450 para ajudá-la na renda familiar, por estar na linha de frente do combate ao Covid-19. Ao ir a uma agência da Caixa na cidade para efetuar o saque, descobriu ter sido vítima de um esquema para roubar dinheiro do auxílio.
“Eu percebi que tinham problemas com os meus saques desde quando me disseram que eu poderia acessar o aplicativo ‘Caixatem’ para efetuar a transferência do auxílio para a conta-corrente que tenho em outro banco. Porém, ao acessar o aplicativo, me informavam que não era possível devido a senha estar errada. Eu tentei, então, criar um novo login, o que não foi possível também, pois informa que meu CPF já estava cadastro. A única alternativa era solicitar uma senha nova, mas ao fazer isso, eles enviavam o link de recuperação para um e-mail que eu nunca vi”, relatou a biomédica.
Outra reclamação de Claudia diz respeito sobre a abertura, sem solicitação dela, de uma ‘conta digital’.
“Quando fui até a minha agência Caixa ver o que poderia ter ocasionado o problema (ainda não sabia da fraude), eles informaram que já haviam sacado esse dinheiro. O que não ficou claro foi o motivo da abertura de uma conta digital para depósito desse auxílio, uma vez que eu tenho conta no banco”, disse.
Sobre a primeira reclamação, a assessoria da Caixa Econômica Federal (CEF), informou em nota que a “área de segurança do banco realiza o monitoramento e mapeamento de ocorrências, em colaboração com os órgãos de Segurança Pública competentes com o objetivo de coibir eventuais ocorrências de fraude”.
A assessoria disse também que “toda constatação de fraudes, os usuários devem realizar a contestação do saque em qualquer agência do banco”.
Sobre as contas digitais, a Caixa decidiu, após a liberação dos primeiros saques, por liberar as demais parcelas em contas digitais, e quando for permitido o saque, o valor cai na conta ‘normal’ do usuário.