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Jornal Diário de Suzano - 23/11/2017
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Adriana Carranca revê saga de Malala em livro-reportagem

21 MAI 2015 - 08h00

Histórias que se passam em um reino distante, cercado por montanhas, com príncipes e princesas e um protagonista que busca a felicidade são comuns na literatura infantojuvenil. Malala, a Menina Que Queria Ir Para a Escola, porém, é diferente de todas as outras: aconteceu de verdade. Além de apresentar uma narrativa verídica, quase um conto de fadas às avessas, em que a personagem principal não quer casar, mas sim estudar, a jornalista Adriana Carranca, repórter especial do jornal O Estado de S.Paulo, traz para crianças e adolescentes um gênero até então usado apenas na literatura adulta: o livro-reportagem.

A obra foi lançada no último dia 16,pela Companhia das Letrinhas na Livraria da Vila dos Jardins, em São Paulo, Adriana resgata as origens do Vale do Swat, no Paquistão, onde Malala nasceu, com dados históricos e geográficos. Na tentativa de compreender de onde vem a coragem da menina, que se tornou um ícone mundial da luta pelo direito à educação, a jornalista viaja até 328 a.C., quando Alexandre, o Grande, enfrentou os pashtuns, povo de Malala.

No texto, Adriana mescla a narrativa em terceira pessoa, em que conta a história de Malala - que aos 12 anos, após o Talibã ter suspendido as aulas das meninas, começou a escrever um blog divulgado pela BBC; aos 15 sofreu um atentado a bala; e aos 17 recebeu o Prêmio Nobel da Paz -, com um relato pessoal, em que compartilha detalhes da apuração dessa grande reportagem. Ela descreve, por exemplo, a visita que fez ao príncipe Miangul Adnan Aurangzeb para saber mais sobre um tempo passado em que as meninas podiam mostrar os cabelos e estudar sem temores no Swat. Para ajudar o leitor com termos pouco familiares, há, nas páginas, uma espécie de dicionário. As ilustrações de Bruna Assis Brasil, que misturam colagens de fotografias e desenhos, são delicadas e ajudam a desvendar um pouco mais da história.

Acostumada a viajar para áreas de conflito, como Afeganistão, República Democrática do Congo, Sudão do Sul, Uganda, e países muçulmanos, como Irã, Egito e Indonésia, para escrever reportagens, Adriana voltou ao Paquistão duas semanas após Malala ser baleada na cabeça, em 2012, dentro de um ônibus escolar. "Não sabíamos que ela se tornaria o que se tornou. Até então, era uma história de violência contra uma menina muito jovem", conta a jornalista. "Foi uma das viagens mais tensas que já fiz. Já tinha entrado no país quando o Talibã anunciou que jornalistas estavam impedidos de ir para o local."

Em primeira pessoa, Adriana descreve o trajeto que percorreu até chegar à cidade de Malala, Mingora, a maior do Vale do Swat, e os problemas de transitar em uma área de difícil acesso. Conta, também, sobre a família que a acolheu, as histórias contadas pelo patriarca no anoitecer e os banhos matinais com água tirada do poço do quintal e aquecida no fogareiro.

Para aproximar o leitor brasileiro desse universo tão distante, Adriana pincela referências de histórias clássicas da literatura infantil. Lembra, por exemplo, de João e Maria, quando se sente frágil ao percorrer os labirintos escuros que levavam à casa da família que a abrigou. Se tivesse seguido o exemplo dos irmãos, pensa, teria marcado o caminho com migalhas.

Condição feminina. O livro narra a vida das mulheres em uma região onde elas ficam confinadas e cobertas - as meninas podem, até uma certa idade, sair de casa, sempre acompanhadas pelo pai ou um guardião, que pode ser um tio ou um irmão mais velho. Em seu relato, Adriana conta que para andar nas ruas com seu guia usava um shalwar kameez, traje tradicional, e cobria o resto com um longo véu, deixando apenas os olhos à mostra. Ao questionar por que, mesmo tão coberta, as pessoas ainda a olhavam, ouviu que seus pulsos apareciam, o que é considerado muito avançado.

Malala era quem acompanhava o pai, um homem importante na região, por ser representante de sua tribo e presidente da associação de escolas particulares da localidade.

Adriana mostra o quão fundamental foi para Malala, durante a infância, a figura do pai, que passou para ela seu sobrenome, Yousafzai, ato incomum no país. A menina o acompanhava em protestos - ele fundou o Conselho de Paz Global, que luta para manter a estabilidade na região - e eventos públicos. Dono de uma escola, ele afirmava que dava à filha os mesmos direitos que aos filhos.

Mesmo antes de aprender a ler e escrever, Malala já se infiltrava entre as alunas mais velhas. O livro apresenta o relato de colegas, que a descrevem como valente, falante, sorridente e como uma pessoa que discursava como gente grande.

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