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Cronicar

03 julho 2021 - 08h00 Por Gabriely Machado
Cronicar

Nas crônicas se pode escrever um pouco de tudo. De preferência na primeira pessoa. Como hoje, ao sair do mercado, na rua, encontrei um amigo antigo, só nos falamos pelas redes digitais. Ele me pergunta por que não publicava sobre o jeito de escrever crônica. “Desculpe, não entendi”, respondi. “O que é crônica?” me diz ele. Perguntei-lhe o porquê da interrogação. Disse-me que via os cronistas de hoje cada vez escrevendo sobre coisas mais diversas e de jeitos nada comum.
De fato isso é transparente. Já escrevi sobre isso faz uns anos. Pensei no que fazer. A proposta era interessante. Quem sabe ainda há interesse nisso? Como está difícil tratar do cotidiano. Muita desgraceira?
Com certeza, muitos cronista se destacam na história da imprensa brasileira, como os clássicos Drummond, Rubem Braga, Cecilia Meireles, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e mesmo Machado de Assis. Alguns me agradavam, tal os queridos Fernando Sabino e Carlos Heitor Cony. Entre os contemporâneos de agora temos Luis Fernando Veríssimo e Martha Medeiros. Vocês, meus caros leitores, com certeza, tem mais gente a acrescentar.
Gosto de muitos desses. E sinto que temos de levar a umas reflexões. Pensar na nossa vida. Entrei na internet e vi que se falava bastante disso, em especial em razão do centenário de falecimento do imenso cronista João do Rio, a 23 de junho de 1921. Ele passou mal na saída do jornal, tomou um taxi e logo pediu um copo d’água. O motorista parou, foi buscar e ao lhe trazer se dá conta de sua morte. Um enfarte fulminante.
João do Rio era um jornalista e escritor muito respeitado. Tanto é fato que a notícia de sua morte se espalhou rapidamente pela cidade do Rio de Janeiro em seguida. No dia seguinte umas 100 mil pessoas foram acompanhar seu féretro.
Ele era um destaque na Cidade. Nascido em 5 de agosto de 1881, no Rio de Janeiro, apesar do nome longo, como da aristocracia, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi recusado no Itamarati pelo Barão do Rio Branco, por ser "gordo, amulatado e homossexual", dizem alguns historiadores. Mas, pela terceira tentativa, ingressou na Academia Brasileira de Letras, em 1910, jovenzinho, nos seus 29 anos. Foi um teatrólogo de sucesso, tanto no Brasil como fora, destacadamente em Portugal e Argentina. Publicou vários livros, também com sucesso. 
Muitos falam dele: "É o primeiro a inventar a reportagem de rua. Até aquele momento. Isso no século 20, não havia um repórter que saísse da redação (...) O João do Rio teve a ideia de ir pra rua e verificar in loco o que acontecia na cidade, principalmente nesse momento em que as transformações urbanas voltadas para ideia de civilização", conta o historiador Antônio Edmilson. Mas, o que é o jeito de escrever crônica, o tal de “cronicar”? Pois é isso, falar das coisas que acontecem, nascimentos, mortes, conquistas, perdas. E como nos apercebemos das posturas e condições da gente do nosso lado. Como vemos o mundo. Como desejamos que o mundo se faça. Como você está vendo as margens do seu caminho?