Estava lá eu, alegre, vendo as nossas moças se destacando nas Olimpíadas, quando apareceu gente propondo a volta dos orelhões com fichas. Será que o mundo tem de se repetir ou a história anda? Enfim, com as coisas correndo me veio à cabeça que uns amigos muitas vezes brincam comigo quando conto umas histórias. Sei lá, a gente sempre tem uma história para contar. Talvez você nem se lembre, mas todos temos nossas histórias. E sei que os amigos riem até mais ao saberem que muitas delas as teríamos vivenciado.
Num papo, daqueles de jogar conversa fora, ouvimos umas tantas coisas. Quase sempre nem lembramos no dia seguinte. Mas se lembramos em outra ocasião, também valem, agregam ao encontro com amigos.
Você já pensou nisso, nesses encontros com amigos, como uma terapia? Não? Então pense, sim. Amigos são para a gente se soltar. Conte lá suas histórias. Jure sempre que são reais, como dizem os americanos no início dos filmes de ficção: “baseado em fatos reais”. O que, verdadeiramente, quer dizer “baseado”? Olha, já disse outra vez, mas repito, juro que nem estou falando daquela tal erva tanto proibida quanto consumida. Mas o tal baseado permite tudo. Quer dizer, adaptamos do real. Ou seja, tudo é tirado do real, ainda que a gente tenha acrescentado algo a mais, né não?
Pois lembra daquele velho deitado? Ou será “velho ditado”? Coisa de gente antiga, que dizia assim: “quem conta um conto aumenta um ponto”. Caramba, todo cara que mexe, ou já mexeu, com literatura sabe disso. Coisa que vale para todo mundo, seja professor, seja escritor, ou seja, talvez o mais importante, o leitor. Todo mundo sabe que a gente pode até nem aumentar, mas apenas “ilustrar”, ou por outra, a gente pode “enriquecer” uma dessas coisas, que ouviu, leu ou mesmo que percebeu.
Já reparou que as gentes entendem o que nos contam de maneiras diferentes, de maneiras diversas, uns dos outros, dependendo da ocasião? Pensei nisso e lembrei de um verso do poeta português Eugénio de Andrade, em que ele dizia que seu ofício era “juntar palavras”. Lembrei também de ter ficado horas pensando sobre isso. Era Professor de Literatura, tinha de poder explicar. Então, o fim do homem talvez seja mesmo só se comunicar, encontrar linguagens, repassá-las aos outros, de modo que eles entendam e nos digam como as receberam, o que entenderam, como entenderam. E não seria essa a finalidade só do poeta, mas de todo o ser humano, dividir com o outro o que sente, o que pensa, o que entende do mundo? Ent ão, se a gente está aí só para misturar palavras (e elas já existiam bem antes de nós), o que nos resta é partilhar.
Claro, só para trazer para vocês mais uma coisa a refletir, como deixar de lembrar outro aspecto da poesia, que é algo que não pode ser sintetizado? Não dá para resumir o poema, que já é a maior síntese possível de algo dito. Mesmo sabendo que um poema chega de modo diverso a cada um. O leitor é que interpreta.
Então, não esqueçamos, temos de contar nossas histórias. Nem que seja por celular.