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Jornal Diário de Suzano - 20/02/2024
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Cidades

Fome leva 34 pacientes, de zero a 14 anos, à internação por desnutrição no Alto Tietê

Número é de 2022 e representa redução de 34,61% na comparação com 2021, conforme levantamento

05 março 2023 - 05h00Por Edgar Leite e Ingrid Leone - Da Reportagem Local

A fome levou, ao menos, 34 pacientes, entre zero e 14 anos, à internação por desnutrição, em hospitais do Alto Tietê, em 2022.

O levantamento é da Secretaria de Estado da Saúde (SES) a pedido do DS.

O mesmo estudo aponta redução de 34,61% nos casos porque em 2021 foram 52.

As regiões de Arujá, Guararema, Salesópolis e Santa Isabel não contabilizaram nenhum caso. Em 2021, apenas o município de Salesópolis não registrou nenhum caso. Todas as demais cidades do Alto Tietê registraram casos, mas o Estado não detalhou individualmente os números, apesar dos pedidos do jornal.

A subnutrição, uma das principais causas de morte de crianças, ocorre quando há um consumo insuficiente de nutrientes essenciais à vida, como vitaminas e sais minerais. Dependendo da fase da vida, isso pode trazer problemas no desenvolvimento, como baixa estatura e problemas cognitivos, além de acarretar o aparecimento de inúmeras doenças, como raquitismo, escorbuto, dores de cabeça, osteoporose, cegueira-noturna, entre outras.

Com o objetivo de diminuir os casos de desnutrição, o Governo de São Paulo informou que desenvolve ações de promoção de alimentação saudável, como o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A, e a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, com o objetivo de fornecer suplementação de micronutrientes e proteção, apoio e incentivo ao aleitamento materno e alimentação complementar saudável.

Ação dos municípios

Municípios do Alto Tietê também realizam projetos de combate à fone. Em Suzano, por exemplo, as Secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social e de Desenvolvimento Econômico e Geração de Emprego de Suzano realiza entrega de cestas verdes para 70 núcleos familiares no distrito de Palmeiras por meio do projeto “Alimentando Vidas”. A ação visa combater a vulnerabilidade social, oferecendo às pessoas o acesso a produtos da agricultura local, como couve-flor, brócolis, beterraba, alface, couve e milho. 

Além dos alimentos, a iniciativa ainda promove ações direcionadas para o fortalecimento da segurança alimentar e nutricional, visando uma mudança na forma de fazer as refeições e buscando o equilíbrio saudável na hora de colocar comida no prato. O impacto das alterações na vida dessas pessoas também são avaliados por meio do programa. Afora as famílias, o “Alimentando Vidas” ainda garante a melhoria da renda para 15 agricultores familiares, uma vez que a produção destes produtores é adquirida por meio do projeto.

O projeto conta com o apoio da Fundação Itaú e tem como executor a Associação de Apoio para Deficientes Visuais de Suzano (Aadvis).

A distribuição dos alimentos é uma forma de combater a fome e principalmente oferecer à população refeições saudáveis e nutritivas para realizar suas atividades diárias. Ter uma alimentação saudável é de extrema importância para a realização de qualquer atividade regular. Pensando nisso, e em garantir dignidade às famílias que precisam de apoio, o ‘Alimentando Vidas’ vem disponibilizando duas cestas verdes para este público a cada quinzena, o que tem contribuído para melhorar a qualidade da alimentação e diminuir a insegurança alimentar, segundo a Prefeitura.
 

Desnutrição aumenta; índice é maior entre meninos negros

A desnutrição entre crianças de 0 a 19 anos cresceu, no Brasil, entre os anos de 2015 e 2021, afetando de forma mais grave os meninos negros. De acordo com o Panorama da Obesidade de Crianças e Adolescentes, divulgado pelo Instituto Desiderata, há um crescimento da fome nos últimos anos, levando à desnutrição em todos os grupos etários, de 0 a 19 anos de idade.

De acordo com o levantamento, o índice de desnutrição caiu de 5,2%, em 2015, para 4,8%, em 2018, aumentando a partir daquele ano em todos os grupos etários acompanhados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2019, essa taxa subiu para 5,6%, atingindo 5,3%, em 2021.

A desnutrição entre meninos negros (pretos e pardos), entretanto, foi dois pontos percentuais acima do valor observado entre meninos brancos, ampliando a diferença a partir de 2018. 

O ápice foi observado em 2019 (7,5%). Em 2020, o percentual foi 7,2% e, em 2021, 7,4%.
Já entre os meninos brancos, a curva foi inversa, com redução do percentual da desnutrição a partir de 2019, quanto atingiu 5,1%, passando para 5%, em 2020, e para 4,9%, em 2021.

“Os meninos negros estão sendo mais afetados pela fome, pela desnutrição. A gente pode atribuir isso à desigualdade racial e de renda no Brasil. A gente sabe que a população negra ocupa as camadas mais pobres da sociedade, em detrimento da população branca, que ocupa outros grupos, como a classe média e classes mais altas”, apontou o gestor de Projetos de Obesidade Infantil do Instituto Desiderata, Raphael Barreto, doutorando em saúde pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em entrevista à Agência Brasil.
Elaborado a partir de dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde, gerados pelas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), o Panorama mostra aumento da insegurança alimentar de 2015 a 2021, aumentando as incidências de desnutrição e também de obesidade

Obesidade

O panorama apontou que o excesso de peso vem crescendo em todos os grupos raciais, mas, especialmente, entre os meninos brancos. “Meninos brancos têm sido mais afetados pelo excesso de peso. A gente pode atribuir isso também à insegurança alimentar”.

Barreto explicou que, no placar da má nutrição produzido pela insegurança alimentar, os grupos mais vulneráveis não têm acesso ao mínimo, que são três refeições por dia, e passam por um quadro de fome e desnutrição. Já outros grupos são afetados pela crise econômica e inflação, mas ainda conseguem comprar alimentos, em geral, ultraprocessados e açucarados, como macarrão instantâneo, salsichas, doces, sucos artificiais. “Produtos que fazem mal à saúde, mas que são possíveis comprar”.

Em 2021, a condição de excesso de peso decorrente da má nutrição foi mais registrada entre meninos de 5 a 9 anos de cor branca.

Nos últimos sete anos, o consumo de alimentos ultraprocessados na faixa etária de 2 a 19 anos superou 80%. Em 2021, 89% das crianças de 5 a 9 anos relataram o consumo de, ao menos, um ultraprocessado no dia anterior à avaliação de acompanhamento no SUS.

Feijão em falta no prato

Raphael Barreto chamou a atenção para a redução do consumo de feijão, no Brasil, ano após ano. Esse grão é considerado um marcador de alimentação saudável, fundamental para a prevenção da anemia por deficiência de ferro. Além disso, possui minerais, vitaminas e proteínas, ajuda a inibir o aparecimento de doenças cardíacas e a diminuir o colesterol.

De 2015 até 2020, o indicador referente ao consumo de feijão tinha valores acima de 80%. Em 2021, entretanto, a taxa diminuiu 30 pontos percentuais em todos os grupos etários de 2 a 19 anos, atingindo a marca de 54,5%. “Em 2020, 84% das adolescentes de 10 a 19 anos tinham ingerido feijão na data anterior à consulta no SUS, sendo que a partir de 2021, esse número cai para 54,5%. Tem uma redução importante no consumo de feijão. A gente vê que a insegurança alimentar e a crise econômica estão tão fortes que um alimento básico, como o feijão, está faltando no prato dos brasileiros”.