Perdemos um amigo querido. É assim que a coisa se faz. Miguel de Deus Rodrigues se foi. Sei que estava doente e assim recolhido. Quando presente era muito atuante. Gentil, carinhoso, atento a Família, aos amigos.
Sei que esse tema é recorrente. Já fui levado a ele muitas vezes, claro. Mais ainda serei. Nesses instantes quero sempre repassar força, tranquilidade como sei que todos buscamos.
Sabemos que não somos nós que escolhemos partir. Isso é extremamente difícil. Não somos capazes de tudo entender, ainda que tentemos. Duvidamos. Mas sabemos que nunca vamos saber por que essas pessoas tão especiais um dia se vão. Sentimos que ficaremos sem elas. Com uma sensação de solidão.
Esses dias uma amiga perdeu a sua mãezinha. Tentei lhe repassar energia. Sei que não é fácil. Já tive as minhas perdas. Vai acontecer com outros mais. Assim como deixar de lembrar da minha perda? Das minhas perdas? De um certo modo sabemos porque nos quedamos assim, como crianças desprotegidas.
Uma partida é sempre uma partida. Ficamos como a vislumbrar o barco a se distanciar, como que a escorrer pelo mar que se amplia adiante, a nos impedir de alcançar com nossos braços.
Lembrei de um poema que publiquei há muitos e muitos anos num dos meus tantos livros sobre uma perda dessas. Esse poema me vinha, volta e meia, sorrateiro, como querendo expressar aquilo que não conseguia me dizer.
Chamei-o assim: “Esconder-se na Poesia”. É como sei, ou sinto, que se escondem aqueles que nos deixam. Deixam tantas saudades. Um vazio imenso como se estivesse plenamente ocupado, cheio como que de um vácuo que não permite que nada o substitua. E ocupam esse vazio com a sua beleza. Com aquele seu encantamento que nos deixaram nos braços. Suas imagens, suas marcas, suas lembranças, são verdadeiros versos. Ouvimos a sua musicalidade.
Com esses seus curtos versos esse poema me vem, me traz, sempre essas lembranças de gente linda que partiu. Eles dizem assim:
“Esconder-se na Poesia”
“quando partiste/ meus dedos repousaram no silêncio/ escapaste na fria tristeza/ daquela manhã de sol/ algo havia estancado em teu peito/ uma vontade íntima?/ um desígnio maior?/ sei que te recolheste na Poesia/ onde escreves versos apaixonados/ onde mais?”
Como recompor esses versos seus, dos seus sinais, do jeito de você, que me deixou, de vocês que me deixaram, ou que nos deixaram?
As suas lembranças ficaram. Estão em mim, sei bem. As lembranças de quem nos falta ficam, recolhem-se em nós. E sem querer as jateamos, as estampamos, pelos espaços que nos envolvem. E ficam lá a nos olhar. Dizem tanto, tanto.
Sei, sabemos todos, mas fingimos ignorar, que essas marcas nos agitam, nos fazem melhorar. Como se pudéssemos melhorar o mundo com as belas pinturas, coloridas, vivas, que você deixou, que vocês deixaram, pelos cantos por onde circulamos.
Sentimos falta. E, ao mesmo tempo, sabemos que você, que vocês estarão por perto a nos sacudir em um instante de descuido. A sua Poesia nos acolhe.