Os nossos pais estão marcados em nós. Os mais jovens, não percebem a seu tempo, as leituras dos seus pais. Na infância os veem como modelos, influencers, como dizem hoje. Na adolescência, iniciam suas contestações, os pais viram repressores. Na juventude, por vezes, começam suas dúvidas. Na maturidade, quando se tornam pais, quase sempre repetem aquilo que questionavam nos pais. Não fui diferente. Vivi umas tantas dificuldades, mas meu pai acompanhou tudo muito bem. Cuidou de mim, me protegeu quando se fez necessário. Sofri um gravíssimo acidente, no meu tempo de faculdade, e ele garantiu meu atendimento hospitalar e de tratamento. Também me apoiou quando saí do País. Saí de navio do porto de Santos, em 1971. Parando no Rio de Janeiro, onde moravam, não os vi de imediato, quando o navio se afastava vi que lá estavam no cais, o meu pai e minha mãe, como descrevo no poema:
“Quando eu Parti”
“ali tão distantes/ do alcance dos meus braços/ estariam me vendo?//
o meu pai a minha mãe//
envelhecidos talvez/ envelhecido eu certamente/ todos do lado de fora do tempo//
o meu pai a minha mãe//
ela em suave aceno/ ele com o lenço na mão/ estático no convés eu me lembro//
o meu pai a minha mãe//
no cais/ se afastando sempre/ sem parar//
o meu pai eu não vi mais”
Estava na França, na minha casa, quando no dia 20 de Janeiro de 1974 recebi uma carta de meu irmão Waldir, informando que meu pai havia falecido no 31 de Dezembro. Ele estava muito doente, mas não queria que eu soubesse. A notícia me derrubou. Escrevi um poema no mesmo instante, cujo título já o descrevia como o percebia.
“Cavaleiro de um Tempo Desaparecido”
“et voilà/ me olho órfão/ por uma janela estranha/ de um mundo estranho/ que não e o meu/ de uma tarde estrangeira/ em que preciso esperar/ que a noite chegue/ para poder dormir/ e esquecer o vazio/ que penetrou no meu peito/ abrindo cavernas tuberculosas/ onde sopra um vento/ frio e vazio e triste/ um vento sem ruídos/ que se choca mudo/ contra paredes surdas/ num ôco que se expande/ e me faz ver só//
et voilà/ me olho órfão/ por uma janela estranha//
estranho eu”
A minha vida continuou. Avancei em meus estudos e trabalho. E após dois anos tive meu primeiro filho, lá fora. O menino chegou num dia 2 de Janeiro, talvez para aliviar o meu peito da lembrança daquela data de meu pai. Que sei? O aprendizado é por vezes impactante.
Pude voltar ao Brasil. Consegui trabalho e fui avançando no que me era permitido. Coisa lenta. Logo minha filha chegou, como um presente em meu aniversário. Fui pouco a pouco visualizando o mundo que se abria para mim, mesmo sem atentar, ia me dando conta de que repetia meu pai, em espacial em honestidade e postura de correção. Em novo poema dava-me conta.
“Pai”
“guardo tuas palavras/ que tanto contestei/ repetindo-as aos meus//
quão doce fostes/ sinto hoje/ no calor das lembranças/ a falta que o mantém//
por vezes/ ouço no silêncio/ as firmes decisões que me alumias/ com que sabias/ descobrir caminhos//
e eu não/ ainda não”