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Jornal Diário de Suzano - 23/01/2022
COLUNA

Eduardo Caldas

Foi candidato a prefeito em Suzano em 2004. É professor de Gestão Políticas Públicas na USP

Livraria Musicultural

19 MAI 2021 - 05h00

Todas as lembranças do texto que segue decorrem do interesse em refletir sobre o debate nacional em taxar o livro e chegam-me cruzadas por um lado pelo mercado do livro no Brasil e por outro pelas minhas reminiscências de infância e juventude na Livraria Musicultural. O espaço é curto e preciso fazer escolhas. Vou contar uma breve história da Livraria Musicultural.
Quando eu nasci a livraria Musicultural já existia. Chamava-se Musicultura inicialmente. Até hoje ainda há quem a chame pelo nome originário. Ela foi criada pelos meus pais no início dos anos 70 e fechada na segunda década do século XXI pouco antes da morte do meu pai. Cresci nessa livraria e guardo a lembrança dos fregueses, dos funcionários, do contador, dos vendedores que por ali passavam, das editoras para onde muitas vezes fui acompanhando meu pai ou algum funcionário, das atividades promovidas pelo meu pai para a promoção da leitura como as feiras do livro na Associação Cultural Suzanense, na antiga Hoechst e a participação nas Festas das Flores com uma barraca, tenda, stand da Musicultural.
A Musicultural começou no número 995 da Rua General Francisco Glicério, um ponto comercial pequeno, alugado. Atrás do referido ponto morava a proprietária, abaixo tinha uma chácara e acima um terreno sem construção. A rua era de paralelepípedo. Era um ponto deslocado do centro que se limitava às duas praças, a João Pessoa e a dos Expedicionários. Nas proximidades ainda havia muito terreno baldio, onde ficavam circos e parques de diversão de passagem por Suzano. Embora houvesse um certo deslocamento do centro comercial, parte significativa dos equipamentos culturais e educacionais do município ficavam próximos como duas escolas estaduais - Geraldo Justiniano de Resende e Silva e Antônio Marques Figueira - além do Auditório Municipal e do Liceu Santo Antônio.
Meus pais compraram o terreno ao lado e levantaram o prédio que se tornou sede fixa da livraria, na Glicério, 1001. Eu tenho muitas lembranças dessa livraria que à noite ficava resguardada por uma porta de aço como tantos comércios no Brasil e no mundo. Atrás da porta de aço havia duas vitrines com exposição dos livros e discos. Logo após as vitrines, havia uma porta de vidro de correr, de fora-a-fora, que permanecia aberta mas hipoteticamente servia para proteger os livros do excesso de poeira. Passada a porta de vidro, os discos e o equipamento de som, além da seção de revistas e jornais. Em seguida, os livros, fundamentalmente de literatura e ciências humanas e as partituras musicais. Segue um jardim com paredes de vidro que cumpria papel de iluminação e ventilação. Nos balcões de trás, material escolar, livros didáticos e um espaço para encontros e conversas.
Na livraria, como era de se esperar, vendiam-se livros, mas também long plays (LP), fitas, partituras musicais, agulhas para vitrolas, jornais e revistas: então havia um material de estoque cultural (livros e discos) e um material de fluxo informativo (revistas e jornais).
Não havia cartão de crédito. O comércio era feito com dinheiro ou cheque. Muitos fregueses tinham suas fichas para pagar no final do mês ou da semana. O freguês passava, pegava o jornal e dizia: marca aí. O mesmo acontecia com as crianças que chegavam com bilhetes dos pais autorizando a venda de livros e material escolar para seus filhos e deixavam a fatura marcada na ficha. Com o tempo, o livreiro, conhecedor do mercado editorial e dos fregueses, passa a recomendar livros. Meu pai então ligava para os fregueses: vou deixar 10 livros aí na sua casa e recolho no final da semana ou você passa por aqui e devolve os que não quiser. Então, livros eram devolvidos e livros também eram comprados. Muitas bibliotecas foram montadas desse jeito. Muitas eram as formas para vender livro, promover a leitura e favorecer a circulação dos livros e das pessoas no ambiente da livraria.
O tempo passou, o mercado mudou muito. O livro que era "tabelado" com preço fixo no território nacional. Agora o livro é vendido de forma eletrônica, quase leiloado. As livrarias como espaço de conversas e encontros vão desaparecendo. A Legislação que desde 1946 garante a isenção de imposto sobre esse produto cultural corre o risco de ser alterada. É preciso entender esses novos tempos.

 

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