Exerço algumas atividades dentro de um complexo hospitalar bastante antigo em nossa região com muita história, principalmente de lutas e esperança.
O atual Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, conhecido como CERAPC é um grande complexo hospitalar, que se assemelha a uma pequena cidade do interior, onde além dos diversos atendimentos clínicos, tem residências, uma igreja católica muito bonita, mas abandonada, igrejas evangélicas e um centro espírita antigo, campo de futebol, quadra esportiva, muito verde e um teatro, por sinal com melhor acústica e número de assentos, entretanto, completamente abandonado pelo poder público.
Esse espaço existe há quase cem anos, no dia 2 de agosto completará noventa e oito anos.
Teve seu início nos idos dos anos 20, com a construção de inúmeros prédios denominados Carville, onde ficariam os internos portadores do mal de Hansen, inicialmente por livre vontade e, posteriormente compulsoriamente, além de centros médicos e enfermarias para o tratamento contínuo que a doença exigia à época.
Denominado no início de Hospital Asylo Santo Ângelo, tinha em sua entrada uma placa com os dizeres "Aqui renasce a esperança" que dava aos doentes que chegavam, com dores e chagas de que ali encontrariam a recuperação da saúde, o que, entretanto, no início não se cumpria, em face ainda de não se ter descoberto a cura para esse mal que acompanhava a humanidade desde os primórdios dos tempos com o isolamento das pessoas contaminadas para evitar o contágio.
A hanseníase ainda existe e o tratamento hoje não carece mais de internações prolongadas, mas é necessário o cuidado e atenção para nos primeiros sintomas buscar ajuda médica evitando sequelas e dores.
Em outros tempos foi um lugar isolado por conta do alto contágio desse mal, atualmente está cercado de bairros e construções legais ou não, mas o complexo continua ativo como hospital de atendimento especializado em reabilitação física de pacientes e serviços de atendimento às pessoas ostomizadas.
Possui também UTI pediátrica permanente que atende crianças que fazem uso de equipamentos especiais, além de traqueostomia, que ali permanecem desde seus primeiros dias de vida até o final, com acompanhamento médico e de enfermagem de excelência.
Há também um Centro Cirúrgico e uma UTI adulta para pacientes que necessitam de tratamento paliativo.
Quando entramos sentimos a maravilha de um ambiente com muito verde, árvores quase centenárias plantadas em sua maioria pelos primeiros pacientes que ali residiram e cuidavam com carinho do local, sentimos também uma energia vibrante de esperança, apesar dos inúmeros internos em caráter definitivo, porque recebem todos os cuidados necessários para sobreviveram sem dor e acompanhados de um grupo de excelentes médicos e um corpo de enfermagem muito dedicado.
Quando temos a possibilidade de visitar uma dessas UTI, com autorização e agendamento é gratificante e de muito aprendizado individual, passamos a olhar para nossos problemas com outro entendimento, vendo quanto são minúsculos e solucionáveis e, passamos agradecer ao Mestre todos os momentos de vida que temos com possibilidade de nos movimentar livremente e com saúde, mesmo que enfrentando as dificuldades cotidianas que fazem parte da existência de todos nós.




