Nos últimos meses, ficou difícil entrar em qualquer conversa sobre negócios sem esbarrar no mesmo assunto, inteligência artificial. Ela está nos posts, nas apresentações, nos discursos das lideranças. Aparece como promessa de produtividade, como visão de futuro e, principalmente, como parte da imagem que as empresas querem projetar. Agora, somos “AI-first”.
Mas, no meio desse movimento, começa a surgir algo mais discreto e, diria, mais perigoso do que a ausência de tecnologia. A construção de uma cultura artificial.
Artificial no sentido literal. Aquela que funciona bem no discurso, no post de rede social, mas não se sustenta no dia a dia. É a empresa que fala de inovação, mas mantém processos que bloqueiam qualquer tentativa de mudança. Que publica conteúdos otimistas sobre o futuro, mas não abre espaço para testar no presente. Que se posiciona como moderna para fora, mas opera com medo de errar por dentro.
Nessa realidade, a inteligência artificial vira quase um símbolo. Não de transformação de verdade, mas de intenção. E intenção, por si só, não muda nada.
O problema é que esse tipo de cultura cria uma distorção perigosa, a sensação de avanço sem avanço de fato. Quem vê de fora acha que a empresa é inovadora, moderna, super “pra frente”. Já quem está dentro sabe que não é bem assim. Talvez você já tenha vivido isso.
Quando falamos de cultura artificial, tem um grupo que sente isso primeiro. As pessoas intraempreendedoras.
Gente que tem iniciativa, que quer testar, construir e tirar ideias do papel. Só que esse tipo de comportamento depende do ambiente. Sem autonomia, sem abertura ao erro e sem decisões ágeis, não tem inovação que se sustente.
Quando a cultura fica só no discurso, esses perfis vão perdendo espaço. E, aos poucos, param de tentar. Enquanto isso, fora das empresas, o movimento é outro. Nunca se falou tanto em empreender. Nunca teve tanta gente disposta a criar algo próprio, testar ideias e construir caminhos independentes.
Isso não acontece por acaso. Existe uma busca por autonomia, por realização e por ambientes onde seja possível agir. Quando a empresa não oferece isso, o talento simplesmente vai procurar fora. E aí aparece uma oportunidade que quase ninguém está olhando.
De um lado, empresas tentando parecer mais inovadoras do que realmente são. Do outro, uma geração pronta para construir, testar e aprender fazendo.
A conexão entre esses dois lados deveria ser natural. Empresas têm estrutura, acesso a mercado e escala. Pessoas com perfil intraempreendedor têm energia, iniciativa e vontade de fazer acontecer.
Mas, para isso funcionar, não adianta discurso. A cultura precisa ser de verdade. Sem isso, qualquer conversa sobre inovação ou inteligência artificial vira só estética. Enfeite corporativo que não sustenta crescimento.
Claro que não dá mais para tratar inteligência artificial como algo opcional. O ponto, para mim, é outro. A mesma energia que aparece quando o assunto é IA precisa existir quando falamos de cultura. As empresas ganham muito com IA, mas também podem perder muito com uma cultura artificial.
Quando a cultura é de verdade, o resultado também sai do discurso.




Thiago Adriano é diretor de criação, estrategista e empreendedor - (Foto: Divulgação)

