A presença de cães no entorno da Estação de Suzano da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) faz parte da rotina de quem circula pelo local diariamente. Apesar da convivência considerada tranquila por passageiros e comerciantes, um caso recente de agressão a um dos animais passou a ser investigado pelas autoridades.
O DS esteve na estação na última quinta-feira (19) e presenciou cerca de cinco cães nas escadas de acesso. No local, comerciantes relataram que os próprios trabalhadores costumam alimentar os animais e que eles não representam risco para os usuários.
Segundo os entrevistados, os cães são dóceis, mas às vezes avançam contra moradores de rua e usuários de drogas, que por vezes provocam os animais. Ainda assim, a percepção geral é de convivência pacífica.
O comerciante Wendhel Honorato afirmou que o número de animais já foi maior. “Uma ONG veio até aqui, levou alguns e outros acabaram sendo adotados”, disse.
Entre os passageiros, a avaliação também é positiva. A auxiliar Camily Ribeiro, que passa diariamente pela estação, afirma que os cães não causam incômodo. “Não atrapalham em nada. Deixam o ambiente mais acolhedor”, relatou.
Já a professora Elaine Cristina acredita que os animais demonstram mais medo do que agressividade. “Eles têm medo das pessoas. Se algum ataca, deve ter algum motivo”, afirmou.
Sobre o caso de agressão
De acordo com a Polícia Cívil de São Paulo, um caso de maus-tratos a animal foi registrado no sábado (14), na Rua General Francisco Glicério.
Um homem compareceu à delegacia e relatou ter visto um idoso agredindo um cachorro. A ocorrência foi registrada como prática de abuso a animais, e diligências estão em andamento para esclarecer os fatos.
Impasse
A Prefeitura de Suzano informou que tem conhecimento da presença dos cães e destacou que eles são considerados animais comunitários, ou seja, vivem no local com o apoio de moradores e protetores independentes.
Segundo a administração municipal, não há ações de recolhimento, já que esse tipo de prática não é mais adotado e é proibido por legislação federal.
A gestão citou a Lei Federal nº 14.228/2021 e a Lei de Crimes Ambientais Lei nº 9.605/1998, que garantem a permanência dos animais no local onde vivem.
Ainda de acordo com a Prefeitura, os cães da região estão inseridos no programa “Baby, me Leva!”, que promove adoção responsável, além de incluir ações como castração e microchipagem.
A administração também destacou que a praça de acesso à estação, localizada próxima à Rua General Francisco Glicério e à Rua Dr. Prudente de Moraes, é de responsabilidade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Por isso, qualquer medida no local depende do aval da companhia.
Sobre o caso de agressão, a Secretaria de Meio Ambiente reforçou que denúncias de maus-tratos podem ser feitas pela Ouvidoria Municipal, pelo telefone 0800-774-2007 ou pelo e-mail oficial do órgão ouvidoria@suzano.sp.gov.br. A pasta também ressaltou que repudia qualquer tipo de violência contra animais.
O DS entrou em contato com a CPTM, que encaminhou em nota, que lamentou o caso de agressão e informou que não houve registro de ocorrência em seus canais oficiais, mas se colocou à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.
A companhia destacou ainda que, em agosto de 2025, realizou uma reunião com órgãos municipais de bem-estar animal e controle de zoonoses para discutir medidas voltadas à redução do abandono e à segurança no entorno da estação.
Segundo a empresa, ações no local devem ser discutidas em conjunto com a Prefeitura, o que reforça o impasse sobre a responsabilidade pela área.
Grupo voluntário cuida de cães e busca apoio para manter trabalho
O grupo Cães da Estação atua há quase quatro anos no cuidado de animais que vivem no entorno da Estação de Suzano. Formado por cerca de 15 voluntários, o grupo realiza alimentação, acompanha tratamentos veterinários e incentiva a adoção dos cães.
Segundo a voluntária Fabiana Tavares, o objetivo é garantir o mínimo de dignidade aos animais. “Nosso foco é dar um bem-estar para os animais ali da estação. Pelo menos garantir cuidados, como veterinário, remédios e alimentação”, afirma.
A atuação se estende também ao terminal de ônibus e à Praça João Pessoa, onde há cães que acompanham moradores de rua. “São animais que não têm ninguém. A gente tenta dar o mínimo de acolhimento para eles”, diz.
Sem um espaço físico e próprio para abrigar os cães, o grupo depende de lares temporários pagos pelos próprios integrantes. Cerca de 90% dos custos são bancados pelos voluntários, com apoio pontual. Em alguns casos, há ajuda do vereador Marcel Pereira da Silva, Marcel da ONG, mas a maior parte das despesas contínua sendo assumida pelos voluntários.
“Cada um ajuda como pode. Tem gente na alimentação, outros na divulgação, outros ajudam com lar temporário. É tudo dividido conforme a disponibilidade”, explica Fabiana.
Em 2024, o grupo conseguiu resgatar e encaminhar 32 cães para adoção, muitos deles retirados da estação. Apesar dos resultados, a iniciativa enfrenta dificuldades, principalmente financeiras e pela falta de voluntários.
Fabiana relata que o trabalho nem sempre é compreendido pela população. “Muitas pessoas não gostam dos cachorros e acabam criticando a gente, como se a gente fosse culpado deles estarem ali. Mas eles sentem fome, frio, têm sentimento igual a gente”, afirma.
Atualmente, o grupo promove uma campanha nas redes sociais para custear o tratamento de um cachorro doente, orçado em cerca de R$ 2,5 mil, além de buscar apoio para manter a alimentação diária e conseguir abrigo temporário para alguns animais.
Mesmo com os desafios, o trabalho continua. “A gente segue porque sabe que eles precisam. Nosso objetivo é que todos consigam um lar, mas enquanto isso não acontece, tentamos dar o mínimo de dignidade”, conclui.



Estação tem cães comunitários e impasse sobre responsabilidade - (Foto: Regiane Bento/Arquivo DS)




