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Soia

16 agosto 2025 - 08h00 Por Gabriely Machado
Soia

Estava pensando naquele verbo, lá dos tempos antigos da Língua Portuguesa, “soer”, que nos indica o tanto que costumamos ser, o tanto que nos repetimos e o tanto que mudamos. Como deixar de reconhecer? A realidade que exibimos é de que nos transformamos. E mudamos muito, muito mesmo. Não repetimos nossos pais (ou repetimos?). Como se a cada época inventássemos um novo modo de vida, um novo jeito de ser. E, sem querer, acabei lembrando de um soneto do querido Poeta português Luiz Vaz de Camões, coisa lá do século XVI. Ah, você não estudou esse Poeta? Vou trazendo esse criador para refletirmos sobre o tanto que ele diz. Ele não falava da gente portuguesa tão somente, daqueles tempos da descoberta do Brasil. Ele tratava do ser humano em todas as partes do mundo. E ainda hoje vamos nos dando conta de que não somos tão diversos no nosso jeito de ser do que nossos ancestrais foram. Bom, vamos ver algo disso mais abaixo, o “Soneto 49”: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.//
Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/ E do bem (se algum houve) as saudades.//
O tempo cobre o chão de verde manto,/ Que já coberto foi de neve fria,/ E enfim converte em choro o doce canto.//
E, afora este mudar-se cada dia,/ Outra mudança faz de mor espanto,/ Que não se muda já como soía”.
Vamos nos tornando, lenta, lentamente, o que nossos pais nos disseram que seríamos. Jamais acreditamos que isso viesse a ocorrer um dia. Sempre nos vimos como seres diversos daqueles descritos por nossos velhos pais. Até porque sempre buscamos, ou pretendíamos viver em outro espaço, em outras condições daquelas ofertadas por nossa família. Sempre nos dispusemos a mudar o mundo. Jamais repeti-lo. Se você, meu caro leitor, já é um ser adulto, um pai, talvez, já deve ter percebido que aquelas suas críticas às palavras ditas por seu pai para você (que você nunca aceitou ou sempre contestou!), hoje você as repete a seus filhos. Caramba! Já se deu conta disso? Tudo o que você lutou contra agora reproduz. Você acaba se apercebendo efetivamente que repete seu pai, em tudo aquilo que você questionava. Você mudou e permaneceu! Coisa complicada.
Você sabe, e sente, que não é cópia do seu pai, você mudou a sua parte. Você lembra das mágoas que lhe chegaram, naqueles tempos do passado, mas...
Verdade, o mundo mudou e você, certamente, por várias vezes criticou essas mudanças, que considera para pior. Sente lá sua falta das boas recordações. Mas se interroga, por que não muda fortemente a sua parte no percurso seguido até aqui. Quer coisas diversas das que visualiza a sua frente. Sim! Repetimos, o mundo mudou. Assim foi como previu e sente como as coisas andam. No entanto vai se reconhecendo como parte do que se repete. Estranho! Como permitimos o mundo seguir igual e diferente do já vivido? E como podemos intervir para o resultado se fazer melhor? Temos muito a refletir. E contribuir. O mundo novo precisa de nossa vontade e sabedoria para oferecer o melhor aos demais. Vamos dar o nosso lado bom.