Trinta e oito anos antes de se tornar um município autônomo, Ferraz de Vasconcelos nascia nos trilhos. Para celebrar o centenário do marco inaugural da cidade, o Rotary Club de Ferraz de Vasconcelos, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, prepara uma exposição itinerante histórica. O projeto, idealizado por uma comissão de historiadores e representantes da sociedade civil, tem como objetivo resgatar a trajetória da estação ferroviária criada em 28 de julho de 1926, estrutura que deu origem e identidade à cidade e à região.
A comissão organizadora reúne os historiadores Pedro Peter Gomes, Ubirajara Scutari e Laercio Dart, além do empresário Eric Baxmann Carrupt e do contador Leandro Francisco Sales, sob a liderança do presidente do Rotary Club de Ferraz de Vasconcelos, Orlando Rodrigues.
A mostra percorrerá praças e escolas da cidade até 14 de outubro, data do aniversário de emancipação do município. Segundo o historiador Pedro Peter Gomes, autor da obra "José Ferraz de Vasconcelos – O Engenheiro da Central do Brasil", sem a estação de trem, certamente nunca teria havido a emancipação e a cidade não existiria, sendo hoje um mero distrito de alguma cidade vizinha. Ele destaca que foi através dos esforços de Pietro Foschini, que pagou pela construção, e da dedicação de José Ferraz de Vasconcelos, que a projetou e deu a vida pela ferrovia, que a estação existe e transporta gerações há 100 anos.
A história da estação se confunde com a criação do loteamento Romanópolis, lote de terras que hoje abriga o centro de Ferraz de Vasconcelos. Na década de 1920, os terrenos pertenciam à Sociedade Anônima Fazenda Casa Branca, grupo empresarial comandado pelo imigrante italiano Pietro Foschini.
Veterinário por formação e corretor por paixão, Foschini planejou Romanópolis para ser um pedaço da Itália no Brasil, atraindo imigrantes com a promessa de um clima e relevo semelhantes aos da região da Toscana. No entanto, as vendas encalharam. Diante do fracasso comercial, Foschini percebeu que o empreendimento só prosperaria se houvesse uma parada de trem no local.
Para viabilizar a ideia, passou a frequentar insistentemente as unidades da Estrada de Ferro Central do Brasil. Rejeitado pelos diretores da estatal, que consideravam inviável erguer uma estação em uma área sem demanda, a obstinação de Foschini acabou atraindo a atenção do Engenheiro José Ferraz de Vasconcelos, chefe do 2º Distrito de Tráfego da empresa.
Curioso com a insistência do italiano, o engenheiro aceitou visitar Romanópolis. Durante a visita, Foschini o apresentou aos moradores locais como “Zezinho da estação”, o homem que traria o trem para a comunidade. Constrangido pela pressão popular, mas sensibilizado pela causa, José Ferraz de Vasconcelos intercedeu junto à diretoria da ferrovia.
Diante da negativa por falta de recursos, Foschini ofereceu-se para financiar a obra com caixa da Imobiliária Romanópolis. A estatal impôs um último entrave: a ausência de um engenheiro para elaborar o projeto e supervisionar os trabalhos. Zezinho, então, ofereceu-se para projetar e acompanhar a construção voluntariamente e sem custos, conquistando a autorização final.
Em 1924, contudo, o canteiro de obras foi atravessado pela Revolução de 1924. Sob ataques das forças federais contra o sistema de transportes de São Paulo, os maquinistas da região de Mogi das Cruzes recusaram-se a circular. Para evitar o colapso do trajeto entre César de Souza e Penha, o próprio engenheiro Zezinho, que fora maquinista na juventude, assumiu o comando dos trens.
Nessa missão, o trem conduzido por ele foi atingido por um explosivo nas proximidades de César de Souza. Mesmo gravemente ferido, José Ferraz seguiu operando a locomotiva rumo ao centro da capital em busca de socorro. Com as forças esgotadas, desmaiou nos arredores de Romanópolis e foi socorrido de charrete até o centro de São Paulo. Embora tenha sobrevivido ao atentado, contraiu uma pneumonia forte no hospital durante a recuperação e não resistiu. Emocionado com o sacrifício do amigo, Pietro Foschini solicitou à empresa que a nova parada não se chamasse Romanópolis, mas sim Estação Ferraz de Vasconcelos.
Inicialmente prevista para 17 de julho de 1926, a inauguração oficial ocorreu em 28 de julho de 1926, com discurso de Max Vasconcellos, irmão do homenageado, ressaltando o compromisso de Zezinho com os trilhos.
Mesmo aberta, a estação correu risco iminente de fechamento pela baixa demanda de passageiros. Para evitar o encerramento das atividades, comerciantes locais organizaram uma força-tarefa: compravam bilhetes diariamente em grande quantidade para inflar artificialmente as estatísticas de fluxo e simular demanda.
Ao longo do século, o prédio passou por sucessivas reformas até que, em 2004, foi anunciada sua reconstrução completa. Para permitir a demolição do prédio histórico e erguer a nova estrutura, foi montada uma estação provisória de madeira ao lado do Viaduto Ayrton Senna. Após anos de transtornos para os passageiros durante a operação improvisada, a nova Estação Ferraz de Vasconcelos foi finalmente entregue em 2015, dotada de acessibilidade, escadas rolantes e elevadores. A estrutura atual conecta a memória de 1926 ao dinamismo do transporte público moderno do Alto Tietê.



Exposição Rotary Club de Ferraz de Vasconcelos - (Foto: Divulgação)




